7.9.08

O homem bomba

Um atentado espacial, com texto de Ana Cristina Rodrigues e arte de Estevão Ribeiro

Marte, Metrô de Nova Escócia, 05:30 Hora Padrão Terra

A luz da estação, artificialmente controlada, era um alívio para os olhos cansados de Lenora. Vinte anos vivendo em Marte, e ainda não estava acostumada aos tons avermelhados deste estranho mundo.

Trabalhava ao ar livre, nos grandes campos de soja transgênica, sustentáculo das colônias. Não se importava com os protestos de alguns grupos radicais, defensores da pureza genética da natureza sem a interferência humana. Fazia o seu trabalho, e os retrógrados que rugissem.

Reparou que o homem ao seu lado estava coberto por um manto pesado, e carregava uma mala parecendo pesada. Intrigada, Lenora tentava adivinhar o que estaria ali dentro. O desconhecido percebeu e virou-se em sua direção. Um movimento, e estava com uma arma em sua mão.

- É uma bomba, para destruir seus preciosos campos de soja.

Em pânico, Lenora não sabia o que fazer. Talvez o mais sensato fosse esperar a segurança do metrô agir. As câmeras deveriam estar gravando tudo, com áudio e vídeo, e em breve alguém a ajudaria. Enquanto isso, dedicou-se a distrair o eco-terrorista, não fosse ele tentar algo.

- Como assim? Por quê?

- Vocês acham que são muito espertos, modificando a Obra. Vamos mostrar que somos melhores que vocês...Aqueles que seguem a Natureza triunfarão sobre vocês e seus estratagemas vis!

A cientista, sem tirar os olhos da arma, tentou acalmar o sujeito.

- Não é bem assim, poderíamos falar sobre isso e...

- Tarde demais! Assim que o próximo trem passar, o destino dessas plantações estará selado.

Para alívio de Lenora, uma voz grave ecoou na estação vazia.

- Largue a mala. Aqui é a Polícia Metroviária. Temos ordem para atirar se necessário.

Um esquadrão inteiro, vinte oficiais armados. Todos olhando o terrorista com olhos duros. O coração da mulher voltou a bater, e ela sorriu de leve, em triunfo.

Atrás de si, passou a composição, sem parar. Provavelmente fora avisada do tumulto. Lenora não se importou, chegaria atrasada, mas o louco seria detido. Estranhou quando o sujeito começou a gargalhar, alto, como se realmente tivesse enlouquecido.

Os guardas entreolharam-se, com a mira ainda no sujeito. De repente, um eco surdo ao longe e na mesma hora o rádio do chefe policial toca. A gargalhada ainda ressoava, alta, debochada, abafando a voz do oficial. Quando terminou a comunicação, olhou ao seu redor, espantado. Sua voz era baixa.

- O metrô acabou de explodir embaixo da principal plantação de soja do planeta. Parece que, por não ter parado aqui, os terroristas conseguiram cronometar exatamente o momento de maior estrago.

Sem parar de rir, o louco abriu a mala, de onde jorrou uma infinidade de grãos de soja. Foi a última coisa que Lenora viu antes de desmaiar.


Este texto também ganhou uma versão em espanhol na revista on line Sinergia.

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